Bruxaria Sem Dogmas: Século XIV, a pior época para ser uma Bruxa

terça-feira, 12 de maio de 2026

Século XIV, a pior época para ser uma Bruxa



 Você sobreviveria ao século XIV? Conheça os detalhes terríveis da caça às Bruxas nesse período e como a Inquisição moldou o preconceito que ainda enfrentamos. Um artigo necessário sobre memória, dor e a persistência da nossa fé.

 

O século XIV não foi apenas uma época de castelos e cavaleiros, mas o cenário de uma das maiores injustiças da humanidade. No meu novo artigo, mergulho nas sombras da Inquisição para honrar a memória daquelas que foram silenciadas pelas chamas. A história precisa ser contada para que o respeito à nossa fé seja, finalmente, pleno.

 

ARTIGO AUTORAL:

Século XIV, a pior época para ser uma Bruxa:

 

Houve uma data de início em que o vocabulário europeu foi enriquecido com uma nova definição para as reuniões de Bruxas e Feiticeiras, antes chamadas de sinagogas de Satanás, e agora chamada de Sabás.

 

O mais antigo relato de um Sabá de Bruxas vem de Toulouse em 1355. Em um grande julgamento de Bruxas, das 63 pessoas acusadas de fazer pactos com o Diabo, 8 foram queimadas e o resto foi encarcerado pela vida inteiras ou por uns bons anos. Sob tortura, 2 mulheres idosas condenadas confessaram-se culpadas por terem sido assistentes em Sabás, nos quais adoravam o Diabo e praticaram atos indecentes com Ele. Também foram forçadas a admitir terem comido a carne de bebês que elas roubavam de seus berços durante a noite.

 

O termo Sabá geralmente é associado aos sábados dos judeus, o sétimo e último dia da semana. Considerado o dia do descanso de Deus. Conhecido como Sabá na narrativa de Criação no Gêneses em que Deus descansa no sétimo dia após os 6 dias de criação do mundo, foi estabelecido formalmente nas leis do Êxodo.

 

Na realidade o termo Sabá teve origem na antiga Mesopotâmia, onde Sha-bat-um definia o banquete mensal da Lua Cheia. Os judeus só escreveram a bíblia (velho testamento) quando cativos na Babilônia. E aonde ficava a Babilônia? Na Mesopotâmia. Na língua acadiana da Mesopotâmia (Iraque), o termo Sha-at-um significa “uma passagem” e era relativo ao ciclo solar, um ano. O termo para uma passagem lunar (um mês) era Sha-bat-um. A partir disso, aplicado a uma semana ao invés de um mês, derivou-se o termo bíblico judaico Shabath.

 

No início do século XIV (1301-1400), a inquisição formal se voltava especificamente aos hereges, aqueles que cujas doutrinas diferenciavam da ortodoxia romana ou os que desafiavam a autoridade absoluta da Igreja Católica e tal heresia ainda não incluía a adoração pura ao Diabo.

 

Na Inglaterra, o bispo de Conventry foi levado à justiça em 1303 por adorar uma divindade sobrenatural, mas acabou inocentado. Em 1324, a dama Alice Kyteler da Irlanda (considerada a mulher mais rica da cidade de Kilkenny) foi acusada de produzir unguentos sobrenaturais, envenenar seus maridos e fazer sexo com o Diabo.

 

Na França, o frade carmelita Pierre Recordi foi julgado em 1329 por esculpir estátuas de mulheres em cera e sangue de sapo e enterrá-las sob seu solo como oferendas a Satanás. Ele foi condenando à prisão perpétua.

 

Em 1335, Catherine Delort e Anne-Marie Georgel foram julgadas em Toulouse por se entregarem ao Diabo, que lhes ensinaram feitiços para ferir aqueles que as contrariaram.

 

Para incluir o culto ao Diabo ao crime de heresia, o Papa João XXII ampliou o campo de atuação da inquisição, autorizando-a a processar feiticeiros, bruxas e magos. Em sua bula papal intitulada Super illis Specula, de 1326, ameaçava qualquer um que fizesse um pacto com o Diabo ou praticasse Magia com as mesmas penas aplicadas aos hereges.

 

Certos tipos de Magia foram classificados à acusação criminal de maleficia. A implementação da bula começou devagar, pois os inquisidores estavam incertos do significado exato de maleficia.

 

Uma definição adequada de maleficia foi encontrada em 1388, quando a inquisição torturou um homem que revelou informações sobre uma suposta seita valdense próxima a Turim. Ele admitiu que eles adoravam o “Grande Dragão do Apocalipse, que se chama Diabo e Satanás”, dizendo que Ele era “o criador deste mundo, que na Terra é mais poderoso do que Deus.

 

Essa era a diferença:

Um herege era uma pessoa cuja relação com Deus diferia das convenções da Igreja, enquanto uma Bruxa não aceitava Deus de jeito nenhum, mas optava por adorar Satanás. Em 1938 a faculdade de teologia da Universidade de Paris declarou que atos de Magia que buscavam resultados diferentes dos esperados de Deus e da natureza eram realizados por meio de um pacto com o Diabo, explícito ou implícito.

 

O século XIV (1301-1400) foi um período de discórdia e desordem na Grã-Bretanha e Europa Continental. Houve uma mudança rigorosa nos padrões climáticos, o hemisfério norte passou de um processo de 3 séculos de aquecimento para um significativo resfriamento da região.

 

As colheitas foram arruinadas, animais morreram aos milhões e a catastrófica Grande Fome acometeu os países europeus. Como consequência a escassez de alimentos resultou em fome e má nutrição generalizadas. Com o rebanho de ovelhas da nação dizimado, a produção de lã na Inglaterra parou e a consequente queda nas exportações resultou no colapso da indústria de tecelagem na região de Flanders.

 

Como se não bastasse, os reis da Inglaterra e da França entraram em disputas por poder e territórios. Isso resultou na batalha de Crécy, em 1346, que deu início à Guerra dos Cem Anos. Dois anos depois, uma epidemia de febre tifoide e a peste atingiram os rebanhos de ovelhas e gado. Imediatamente após, adveio a peste bubônica da Morte Negra, desencadeada quando navios mercantes voltavam da China e da Ásia trazendo roedores infectados. A peste causou a morte de quase metade da população da Grã-Bretanha e da Europa durante o período conhecido como a Grande Mortandade.

 

As classes baixas rurais foram as mais afetadas. Os grãos importados não afetados pela peste não chegavam mais até elas. Suas fazendas foram devastadas e até mesmo a pesca se tornou escassa. Os camponeses rogavam por salvação, utilizavam quaisquer ervas e poções que encontrassem para combater a doença, aglomeravam-se ao redor das fogueiras tentando se aquecer e compartilhar seu sofrimento. Eles foram denunciados pela Igreja como Feiticeiros e Bruxas que haviam evocado a imundície diabólica para contaminar o mundo!

 

A inquisição começou em 1233 (Século XIII) e terminou no século XIX (1801-1900), mas foi no século XIV (14) que se passou a acusar e perseguir formalmente as pessoas por Bruxaria e Feitiçaria. Em seu início, o foco eram as heresias, mas a partir de então passou a perseguir os supostos adoradores do Diabo, as Bruxas. Com o mundo devastado no século XIV e como os novos hábitos dos camponeses teve início a famigerada caça às Bruxas. Vizinhos acusando vizinhos. Padres acusando loucos e esquizofrênicos. De olho nas posses e dinheiro até a elite estava a perigo.

 

Note que a palavra Pagão originalmente se refere ao homem e mulher do campo. Termo associado ao termo Bruxaria e foi no campo a carnificina mais abominável de toda a inquisição. Definitivamente o século XIV (14) foi o pior período da história para se viver, seja você uma Bruxa (fogueira e tortura), seja você um não acusado de Bruxaria sujeito a fome, peste e frio.

 

AUTOR: YURI CALDAS KARKLIN

SACERDOTE DE BRUXARIA DESDE 2012

BLOG: BRUXARIA SEM DOGMAS

DESDE 2015

 

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