Você sobreviveria ao século XIV? Conheça os detalhes terríveis da caça às Bruxas nesse período e como a Inquisição moldou o preconceito que ainda enfrentamos. Um artigo necessário sobre memória, dor e a persistência da nossa fé.
O século XIV não foi apenas uma época de castelos e
cavaleiros, mas o cenário de uma das maiores injustiças da humanidade. No meu
novo artigo, mergulho nas sombras da Inquisição para honrar a memória daquelas
que foram silenciadas pelas chamas. A história precisa ser contada para que o
respeito à nossa fé seja, finalmente, pleno.
ARTIGO AUTORAL:
Século XIV, a pior época para ser uma Bruxa:
Houve uma data de início em que o vocabulário europeu foi
enriquecido com uma nova definição para as reuniões de Bruxas e Feiticeiras,
antes chamadas de sinagogas de Satanás, e agora chamada de Sabás.
O mais antigo relato de um Sabá de Bruxas vem de Toulouse
em 1355. Em um grande julgamento de Bruxas, das 63 pessoas acusadas de fazer
pactos com o Diabo, 8 foram queimadas e o resto foi encarcerado pela vida
inteiras ou por uns bons anos. Sob tortura, 2 mulheres idosas condenadas
confessaram-se culpadas por terem sido assistentes em Sabás, nos quais adoravam
o Diabo e praticaram atos indecentes com Ele. Também foram forçadas a admitir
terem comido a carne de bebês que elas roubavam de seus berços durante a noite.
O termo Sabá geralmente é associado aos sábados dos judeus,
o sétimo e último dia da semana. Considerado o dia do descanso de Deus.
Conhecido como Sabá na narrativa de Criação no Gêneses em que Deus descansa no
sétimo dia após os 6 dias de criação do mundo, foi estabelecido formalmente nas
leis do Êxodo.
Na realidade o termo Sabá teve origem na antiga Mesopotâmia,
onde Sha-bat-um definia o banquete mensal da Lua Cheia. Os judeus só escreveram
a bíblia (velho testamento) quando cativos na Babilônia. E aonde ficava a
Babilônia? Na Mesopotâmia. Na língua acadiana da Mesopotâmia (Iraque), o termo
Sha-at-um significa “uma passagem” e era relativo ao ciclo solar, um ano. O
termo para uma passagem lunar (um mês) era Sha-bat-um. A partir disso, aplicado
a uma semana ao invés de um mês, derivou-se o termo bíblico judaico Shabath.
No início do século XIV (1301-1400), a inquisição formal se
voltava especificamente aos hereges, aqueles que cujas doutrinas diferenciavam
da ortodoxia romana ou os que desafiavam a autoridade absoluta da Igreja Católica
e tal heresia ainda não incluía a adoração pura ao Diabo.
Na Inglaterra, o bispo de Conventry foi levado à justiça em
1303 por adorar uma divindade sobrenatural, mas acabou inocentado. Em 1324, a
dama Alice Kyteler da Irlanda (considerada a mulher mais rica da cidade de
Kilkenny) foi acusada de produzir unguentos sobrenaturais, envenenar seus
maridos e fazer sexo com o Diabo.
Na França, o frade carmelita Pierre Recordi foi julgado em
1329 por esculpir estátuas de mulheres em cera e sangue de sapo e enterrá-las
sob seu solo como oferendas a Satanás. Ele foi condenando à prisão perpétua.
Em 1335, Catherine Delort e Anne-Marie Georgel foram
julgadas em Toulouse por se entregarem ao Diabo, que lhes ensinaram feitiços
para ferir aqueles que as contrariaram.
Para incluir o culto ao Diabo ao crime de heresia, o Papa
João XXII ampliou o campo de atuação da inquisição, autorizando-a a processar
feiticeiros, bruxas e magos. Em sua bula papal intitulada Super illis Specula,
de 1326, ameaçava qualquer um que fizesse um pacto com o Diabo ou praticasse
Magia com as mesmas penas aplicadas aos hereges.
Certos tipos de Magia foram classificados à acusação
criminal de maleficia. A implementação da bula começou devagar, pois os inquisidores
estavam incertos do significado exato de maleficia.
Uma definição adequada de maleficia foi encontrada em 1388,
quando a inquisição torturou um homem que revelou informações sobre uma suposta
seita valdense próxima a Turim. Ele admitiu que eles adoravam o “Grande Dragão
do Apocalipse, que se chama Diabo e Satanás”, dizendo que Ele era “o criador
deste mundo, que na Terra é mais poderoso do que Deus.
Essa era a diferença:
Um herege era uma pessoa cuja relação com Deus diferia das
convenções da Igreja, enquanto uma Bruxa não aceitava Deus de jeito nenhum, mas
optava por adorar Satanás. Em 1938 a faculdade de teologia da Universidade de
Paris declarou que atos de Magia que buscavam resultados diferentes dos
esperados de Deus e da natureza eram realizados por meio de um pacto com o
Diabo, explícito ou implícito.
O século XIV (1301-1400) foi um período de discórdia e
desordem na Grã-Bretanha e Europa Continental. Houve uma mudança rigorosa nos
padrões climáticos, o hemisfério norte passou de um processo de 3 séculos de
aquecimento para um significativo resfriamento da região.
As colheitas foram arruinadas, animais morreram aos milhões
e a catastrófica Grande Fome acometeu os países europeus. Como consequência a
escassez de alimentos resultou em fome e má nutrição generalizadas. Com o
rebanho de ovelhas da nação dizimado, a produção de lã na Inglaterra parou e a
consequente queda nas exportações resultou no colapso da indústria de tecelagem
na região de Flanders.
Como se não bastasse, os reis da Inglaterra e da França
entraram em disputas por poder e territórios. Isso resultou na batalha de
Crécy, em 1346, que deu início à Guerra dos Cem Anos. Dois anos depois, uma
epidemia de febre tifoide e a peste atingiram os rebanhos de ovelhas e gado. Imediatamente
após, adveio a peste bubônica da Morte Negra, desencadeada quando navios
mercantes voltavam da China e da Ásia trazendo roedores infectados. A peste
causou a morte de quase metade da população da Grã-Bretanha e da Europa durante
o período conhecido como a Grande Mortandade.
As classes baixas rurais foram as mais afetadas. Os grãos
importados não afetados pela peste não chegavam mais até elas. Suas fazendas
foram devastadas e até mesmo a pesca se tornou escassa. Os camponeses rogavam
por salvação, utilizavam quaisquer ervas e poções que encontrassem para
combater a doença, aglomeravam-se ao redor das fogueiras tentando se aquecer e
compartilhar seu sofrimento. Eles foram denunciados pela Igreja como Feiticeiros
e Bruxas que haviam evocado a imundície diabólica para contaminar o mundo!
A inquisição começou em 1233 (Século XIII) e terminou no
século XIX (1801-1900), mas foi no século XIV (14) que se passou a acusar e
perseguir formalmente as pessoas por Bruxaria e Feitiçaria. Em seu início, o
foco eram as heresias, mas a partir de então passou a perseguir os supostos
adoradores do Diabo, as Bruxas. Com o mundo devastado no século XIV e como os
novos hábitos dos camponeses teve início a famigerada caça às Bruxas. Vizinhos
acusando vizinhos. Padres acusando loucos e esquizofrênicos. De olho nas posses
e dinheiro até a elite estava a perigo.
Note que a palavra Pagão originalmente se refere ao homem e
mulher do campo. Termo associado ao termo Bruxaria e foi no campo a carnificina
mais abominável de toda a inquisição. Definitivamente o século XIV (14) foi o
pior período da história para se viver, seja você uma Bruxa (fogueira e tortura),
seja você um não acusado de Bruxaria sujeito a fome, peste e frio.
AUTOR: YURI CALDAS KARKLIN
SACERDOTE DE BRUXARIA DESDE 2012
BLOG: BRUXARIA SEM DOGMAS
DESDE 2015
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