O Brasil Antropofágico! O canibalismo cultural brasileiro!
Ao longo da história da humanidade, os deuses cruzaram fronteiras, mudaram de nome e ganharam novos contornos à medida que diferentes povos se encontraram. Da Antiguidade Clássica às terras brasileiras, a fusão de mitos e dogmas nunca significou o apagamento de uma fé sobre a outra, mas sim a criação de novas pontes entre o visível e o invisível. Compreender essas conexões exige abstração, um olhar livre de preconceitos e a disposição para enxergar o sagrado em suas múltiplas manifestações.
Neste artigo, exploraremos a rica tapeçaria do sincretismo
religioso. Navegaremos pelas correspondências clássicas entre os panteões grego
e romano, desvendaremos divindades complexas como Hermanúbis no Egito Antigo e
entenderemos a profundidade dos deuses mensageiros e psicopompos — como Hermes,
Mercúrio, Toth e Exú — que transitam entre as dimensões e conectam a Terra ao
Céu.
Mais do que isso, traremos essa discussão para o chão do
Brasil, onde o encontro entre o Catolicismo e as religiões de matriz africana
(como a Umbanda e o Candomblé) frequentemente e erroneamente é rotulado como
aculturação. Relacionando a preservação do axé dos Orixás aos movimentos do
Modernismo e da Tropicália, este texto convida você a uma reflexão
transformadora: o sincretismo não é a perda de uma identidade, mas sim a mais
pura expressão da antropofagia cultural brasileira.
Sincretismo
substantivo masculino
1.
RELIGIÃO
fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus
elementos.
2.
FILOSOFIA
síntese, razoavelmente equilibrada, de elementos díspares, originários de
diferentes visões do mundo ou de doutrinas filosóficas distintas.
Vamos tratar do sincretismo religioso, pois essa é uma página religiosa.
Falaremos do clássico sincretismo greco-romano, sincretismo greco-romano com
Deuses egípcios e sincretismo brasileiro entre Orixás e Santos católicos.
É notório e sabido o sincretismo greco-romano. Como exemplos: Demeter grega e
Ceres romana, Perséfone grega e Prosérpina romana, Cronos grego e Saturno
romano, Zeus grego e Júpiter romano, e por aí vai. Embora haja ligeiras
diferenças. Tais sincretismos não são tornar idênticas divindades de panteões
diferentes. Saturno, por exemplo, é muito ligado à agricultura, o que não se
observa com sua contraparte grega, Cronos.
Temos um caso interessante entre dois Deuses sincréticos greco-romanos que é
entre Hades grego e Plutão romano. Em português fica fácil a distinção nominal
entre Pluto grego (Deus da riqueza) e Plutão romano (Deus do submundo dos
mortos). O problema é que Plutão romano traduzido pro inglês fica Pluto, o
mesmo nome do Deus grego da riqueza.
Outro ponto a se observar é que os povos que antecederam os gregos na Grécia
foram os minoicos, daí o mito da morte da figura mitológica Minotauro. Esse
mito, entre outras coisas, retrata o fim da civilização minoica e o
estabelecimento dos povos gregos (helênicos) na Grécia. Já em Roma, os povos
que antecederam os romanos foram os etruscos. Os etruscos possuíam uma
divindade dos mortos chamado Dis. O Deus romano Plutão é fruto do sincretismo
entre Dis etrusco, Hades grego e Pluto (Deus da riqueza) também grego.
Outro caso interessante é o sincretismo entre os Deuses mensageiros Hermes Grego,
Mercúrio Romano, Exú africano e uma divindade que revelarei mais à frente no
texto:
Existe uma classe de Deuses que possuem o Mistério do Deus que transita entre
mundos. O Deus que faz a comunicação entre os homens e Deus. Assim como, a
comunicação entre Deuses.
Exú Orixá é um Deus desse tipo. Ele comunica e faz a ponte entre o Ayê (Terra)
e o Orum (Céu). Assim como há Exú no berço da África e da civilização, há
também correspondência entre Exú Orixá e diferentes Deuses de diferentes
panteões.
Para que me entenda, terá que abstrair. Se você é monoteísta, tem que tentar
pensar como um povo que crê e tem em sua cultura o politeísmo.
Assim como Exú é um Deus de comunicação, assim é o Deus Mercúrio romano e
Hermes Grego. Ambos partilham do Mistério do Deus mensageiro.
Hermes e Mercúrio são retratados com sapatilhas aladas. Denotando o mistério do
Deus mensageiro.
Também podemos lembrar de Hermes Trismegistos, O 3 vezes mago. Em tal
associação do 3 vezes mago temos uma fusão com base no caráter de Deus que
comunica entre dimensões, Mercúrio Romano, Hermes Grego, e Toth egípcio.
Alguns Deuses tem a característica de Deus Psicopompo. Deuses encarregados de
dar destino para cada alma humana que desencarna.
Anúbis egípcio é um Deus psicopompo, encarregado de dar destino às almas, assim
como Hermes e Mercúrio.
Portanto há 2 Hermes Trismegistos. Hermes Trismegistos (Mercúrio, Hermes e
Toth) e Hermes Trismegistos (Mercúrio, Hermes e Anúbis).
Há uma divindade fruto da fusão de Hermes grego e Anúbis egípcio numa divindade
conhecida como Hermanúbis.
A escultura mais antiga que temos dessa divindade, Hermanúbis, está preservada
no Vaticano.
De toda forma é o Mistério do Deus 3 vezes Mago.
Note que conseguimos sincretizar Hermes grego, Mercúrio romano, Toth egípcio,
Anúbis egípcio e Exú Yorubá (da África subsaariana – abaixo do deserto do
Saara.
O Brasil é fruto de uma imensa miscigenação cultural e racial entre diversos
povos. O mais notável é a cultura e Deuses africanos subsaarianos conhecidos
como Orixás, Inquices e Voduns que dependem da nação em que os negros
escravizados vieram para o Brasil. Vamos usar o termo Orixás por ser o mais
popular.
Até os dias de hoje é sólido o sincretismo dos Orixás com Santos católicos. Os
negros trazidos para servirem de escravos não podiam expressar sua fé
livremente, ora, eram escravos. Um fato que ocorria com certa frequência é que
esses negros enterravam os fundamentos dos seus Orixás no chão batido da
senzala. Por cima de cada fundamento, que continha a energia (axé) dos seus
Orixás, eles colocavam uma imagem de Santo católico correspondente. Assim,
podiam manter suas práticas religiosas sem serem importunados pelos senhores de
escravos.
Até os dias de hoje temos o sincretismo de Santos católicos com Orixás.
Dependendo da região do Brasil as associações são diferentes, como Nossa
Senhora da Conceição e Nossa Senhora dos Navegantes com Yemanjá. Temos vários
outros exemplos: Ogum e São Jorge, Obaluayê e São Lázaro ou Santo Onofre,
Oxóssi e São Sebastião, Yansã e Santa Bárbara, Xangô e São Gerônimo ou São João
Batista, e por aí vai.
Muitos poderiam argumentar que associações entre Santos católicos e Orixás é
aculturação. Aculturação se difere de sincretismo por denotar algo mais
pejorativo em que uma cultura morre para dar lugar a outra, o que não é o caso.
Para entendermos, vamos pensar nos povos nativos do Brasil, os índios. É sabido
e notório que várias tribos indígenas brasileiras praticavam a antropofagia
(canibalismo). Mas as tribos vencedoras de um conflito só se alimentavam dos
mais fortes guerreiros da tribo derrotada, acreditando que com isso ganhariam a
virtude de quem se alimentavam. Dentro das religiões afro-brasileiras temos o
culto de caboclos (espíritos de índios).
O movimento antropofágico foi uma manifestação artística brasileira da década
de 1920, fundada e teorizada pelos paulistas Oswald de Andrade, poeta, e
Tarsila do Amaral, pintora. Iniciando o modernismo no Brasil.
Aprofundando a ideologia da Poesia Pau-Brasil, que desejava criar uma poesia de
exportação, o movimento antropofágico brasileiro tinha por objetivo a
deglutição (daí o caráter metafórico da palavra "antropofágico") da
cultura do outro externo, como a norte americana e europeia e do outro interno,
a cultura dos ameríndios, dos afrodescendentes, dos euro descendentes, dos
descendentes de orientais, ou seja, não se deve negar a cultura estrangeira,
mas ela não deve ser imitada. Foi certamente um dos marcos do modernismo
brasileiro.
O modernismo brasileiro, e, portanto, o movimento antropofágico, visava não
negar o que era produzido fora do Brasil, mas absorver o melhor de fora e com
isso sintetizar a produção cultural brasileira. Como um índio que praticava
canibalismo para absorver o melhor do guerreiro abatido da tribo rival.
Mais à frente no Brasil surge o movimento tropicalismo. Tropicália,
tropicalismo ou movimento tropicalista foi um movimento cultural brasileiro da
segunda metade da década de 1960. Embora a música fosse sua expressão
principal, a Tropicália envolveu outras formas de arte como cinema, teatro e
poesia.
Uma das marcas principais do tropicalismo foram suas inovações estéticas
radicais, que mesclavam elementos de manifestações tradicionais da cultura do
Brasil – notadamente a união do popular e da vanguarda, bem como a fusão da
tradição brasileira – com tendências estrangeiras da época. Esses objetivos
comportamentais encontraram eco em boa parte da sociedade brasileira sob a
ditadura militar no final da década de 1960.
Musicalmente, a Tropicália representou uma renovação no cenário musical
brasileiro ao fundir gêneros como o baião, o caipira, o pop e o rock. Essas
experimentações culminaram no lançamento do célebre LP Tropicalia ou Panis et
Circencis, em 1968, com a participação dos representantes tropicalistas Caetano
Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes e Tom Zé.
Em outros campos artísticos, a Tropicália influenciou os trabalhos de artistas
como Hélio Oiticica nas artes plásticas, de Glauber Rocha no Cinema novo, e
José Celso Martinez Corrêa no teatro brasileiro. O movimento, contudo, chegou
ao fim com as detenções de Gil e Veloso e, posteriormente, com o exílio dos
músicos baianos por quase três anos.
Um ponto bem revolucionário e antropofágico do movimento tropicália foi a
introdução da guitarra elétrica na música popular brasileira contrapondo o
movimento da bossa-nova.
Portanto, concluo e levo vocês, os leitores, à reflexão de que sincretismo não
é aculturação, é antropofagia!
YURI KARKLIN - SACERDOTE HÁ 14 ANOS DE BRUXARIA
BRUXARIA SEM DOGMAS HÁ 11 ANOS
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